Acordo às seis e trinta da manhã e faço o que sempre faço quando acordo sozinho: vejo meus feeds e o twitter. No segundo, o site da BBC Brasil anuncia um texto do Ivan Lessa sobre romance gráfico e críticas sobre a “adaptação” de livros para o cinema. Curioso, começo a ler.
A princípio, o texto possui um tom completamente normativista: “Há certas regras básicas”. Eu poderia ter parado de ler ali mesmo, afinal, é como se você estivesse conversando com alguém e, entre vocês, um muro. Entretanto, continuei.
Logo em seguida, o texto discorre sobre “boas” adaptações cinematográficas de grandes clássicos da literatura universal e, a meu ver, essas questões não fazem mais sentido algum agora ao final da primeira década do século 21. Não mesmo. Questões como “essência” ou “fidelidade” ao texto fonte já não se sustentam mais diante de inúmeras produções e do seu consumo massivo. O que deve ser levado em consideração é: a diferença. O que aquela produção trouxe de diferente para o texto fonte? É melhor? É pior? Não, nada disso, muito pelo contrário, uma vez que o texto fonte continuará a existir. Haverá sim, um acréscimo de características que irá dialogar com a fonte.
Entretanto, não posso negar que existe dentro do ser humano aquele pensamento – mesmo que esteja na parte mais obscura do nosso ser – responsável por idéias como: “ah, mas eles destruíram a obra…” Não sou tão versado (ainda) na área de tradução – onde se estudam essas questões de “adaptações”, fidelidade X diferença – para definir realmente o porquê desse comportamento, entretanto, arrisco dizer que seja uma coisa bem “simples”: ego. O nosso ego simplesmente se predispõe ao conformismo, ele odeia a idéia do diferente, logo, nada mais justo para ele do que torcer o nariz para as traduções intersemióticas.
Em seguida, o texto faz uma “piada” sobre o termo romance gráfico (Graphic Novels) e o ato de traduzir romances de ficção em quadrinhos. Novamente, as mesmas questões abordadas acima. Entretanto, acredito que devem ser levadas em consideração algumas informações de cunho histórico para justificar as produções que o autor utilizou como exemplo: traduções de clássicos da literatura brasileira para os quadrinhos produzidos pela EBAL (Editora Brasil-América) nos anos 50-60: 1º Nesta época, houve uma queda muito grande de importação de histórias em quadrinhos por conta do Código de Ética que surgiu por causa da divulgação das idéias do psiquiatra Frederic Werthan e o seu “Sedução do Inocente”. Para suprir essa queda, muitas editoras investiram nas “adaptações” de clássicos. A EBAL apenas seguiu com a onda. 2º Estamos falando dos primeiros anos do pós-guerra. Milagres econômicos, moralismo 99,9%, logo, conservadorismo à flor da pele. E nada mais justo do que ter ojerizas às diferenças, enaltecer a fidelidade, enfim, ser um indivíduo com “essência”. Nada mais justo do que produzir então traduções com todos esses ideais.
E todas essas divagações que o autor mostra no texto são apenas para indagar qual seria a novidade que a Graphic Novel (uso aqui o termo primeiro, já que ainda é um gênero textual sem conceituação consistente) sobre a vida do cantor Johnny Cash, uma vez que ele já foi e muito enaltecido nos últimos anos por muitas outras mídias. Ora, em uma mídia em que o próprio espaço entre quadros estáticos já produz muitos outros mundo, não há novidade? Pensemos em algumas coisas: 1 – Em um mundo globalizado como tal, a setoriarização ainda está presente, logo, tem gente que só assiste filme, tem gente que só ouve música, tem gente que lê apenas livros e tem gente que só lê quadrinhos. É o capitalismo na veia, explorar inúmeros pontos que são possíveis. 2 – Nos quadrinhos, existe uma relação que o cinema ou qualquer outra mídia nunca conseguirá suprir: a relação leitor-imagem. A interação que o leitor produz com as imagens, o fato de poder tocá-la, apreciá-la, voltar novamente para mais uma vez admirá-la é único. 3 – Haverá um desgaste desses signos pelo consumo massivo? Sim, haverá. Mas a própria indústria cultural providenciará a sua renovação de um jeito ou de outro, então, é isso aí.
E, para finalizar, o texto propõe uma boa expectativa sobre a tradução que o Robert Crumb fez do Gênesis, o primeiro livro da bíblia. Bem, li apenas o primeiro capítulo, pouca coisas, mas nesse pouco, não vi nada muito diferente do Crumb ao que ele se propôs. Pegando a idéia do Sidney Gusman, provavelmente fará muitos religiosos irritadiços se revoltarem, mas não há nada de novo entre os leitores de quadrinhos.
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Para ler:
Coluna do Ivan Lessa que originou esse post
Frederic Werthan na Wikipedia
ernestodiniz.com – Muitas questões sobre tradução
Review do Gênesis por Robert Crumb feita pelo Sidney Gusman